Rio de Janeiro: Um bom exemplo de como levar a sério a Gestão de Crises e Desastres

NENHUM PLANO SOBREVIVE AO CONTATO COM O INIMIGO. A frase atribuída a Helmuth von Moltke the Elder, um estrategista alemão do final do século 19, bem que poderia ser aplicada as diversas disciplinas estratégicas adotadas no meio corporativo.

A questão é bem simples: Mesmo o mais elaborado e efetivo dos planos, tem de lidar com um coeficiente de incerteza e estar preparado para situações adversas. O tal “inimigo” pode facilmente ser substituído por “cultura corporativa”, “clientes” ou “usuários”. Enfim, escolha a opção que mais se enquadrar no seu cenário e a frase permanece coerente.

"Então um milagre acontece!" Seus planos são assim?
“Então um milagre acontece!” Seus planos são assim?

Esta situação é especialmente verdadeira para Planos de Gestão de Crises e Desastres. Antecipar o comportamento das pessoas, em uma condição que muitas vezes envolve pânico em massa ou mesmo instintos de sobrevivência, não é uma tarefa simples.

Um triste exemplo – e que mostra o “preço” da falta de preparo – é o caso do incêndio na boate Kiss, onde tivemos 242 vítimas fatais e 116 feridos. Vários dos sobreviventes apresentaram – além das óbvias queimaduras – marcas de mordidas e ataques. Sim, eles foram mordidas e atacadas por outras vítimas que tentavam desesperadamente se manter vivas e fugir de um inferno de fogo e fumaça.

Incêndio na boate Kiss: Não devemos e nem podemos esquecer.
Incêndio na boate Kiss: Não podemos esquecer.

Agora imagine o seguinte: No movimentado centro do Rio de Janeiro, por volta das onze da manhã, no meio do que parece uma sexta-feira comum, somos surpreendidos por uma quantidade anormal de pessoas deixando os prédios da região. O anuncio havia sido dado: Devido a um possível incêndio, era necessário todos evacuarem o local imediatamente.

Calma, o que poderia ser o prenuncio de outro grande desastre, não passou de uma simulação. Um grande exercício de evacuação. Esta é sem dúvida uma das melhores formas de reduzir o coeficiente de incerteza e de preparar as pessoas para lidar com situações adversas.

What do we say to the god of disasters?
What do we say to the god of disasters?

No inicio da semana passada, justamente quando estava ministrando um curso intensivo de Gestão de Continuidade de Negócios e Formação de Analistas de Recuperação de Desastres de TI (ITDRA) para um cliente no centro do Rio, fomos informados que na sexta-feira deveríamos atender a um exercício de evacuação do prédio, o que achei excelente, pois além de se enquadrar perfeitamente na temática do curso, eu teria material certo para meu próximo artigo (cuja paciência de ler você está tendo agora. Obrigado!)

Minha surpresa foi maior ainda quando descobri que não se tratava de um simples exercício individual do prédio, e sim do Dia Estadual de Redução de Risco de Desastres no Estado do Rio de Janeiro, realizado pela Secretaria de Estado de Defesa Civil (SEDEC) e o Corpo de Bombeiros.

O aviso do “Dia Estadual de Redução de Risco de Desastres no Estado do Rio de Janeiro” estava exposto em elevadores e locais de grande circulação.
O aviso do “Dia Estadual de Redução de Risco de Desastres no Estado do Rio de Janeiro” estava exposto em elevadores e locais de grande circulação.

Tiro o chapéu para a iniciativa, que deveria ser adotada por todo e qualquer grande centro e empresas que querem ter uma Gestão de Risco que vai além do P-I-V. O Exercício de Escape foi muito bem planejado e executado, indo desde a distribuição de cartilhas e folders, e contando com a presença das forças de segurança pública, que aproveitaram a ocasião para conscientizar o público em geral e ministrar treinamentos básicos de primeiros socorros.

Claro, se realmente houvesse um incêndio, dificilmente veríamos as pessoas desocupando os prédios nas filas tranquilas e ordenadas e se juntando no ponto de encontro como no momento do exercício. O que temos de levar em conta, é que o teste é uma das poucas formas realmente efetivas de reduzir o coeficiente de incerteza em uma situação de risco real.

Além de preparar as pessoas, esse é o momento onde capturamos métricas importantes como, por exemplo, o tempo de evacuação, possíveis incidentes nas rotas de fuga, eventuais baixas (simuladas claro!), que devem ser usados como feedback para atualização e melhoria dos planos. Colocando em termos simples – a essas informações podem muito bem ser a diferença entre a vida e a morte.

Cartilha e Folder que foram distribuídos durante o exercício
Cartilha e Folder que foram distribuídos durante o exercício

Novamente, parabéns pela iniciativa Rio de Janeiro! Espero sinceramente que vocês nunca tenham que colocar o plano em prática, mas como o prédio em que eu estava trabalhando já teve uma evacuação de emergência, pois fica a meros quarteirões do local onde um edifício de 18 andares já desabou, fico um pouco mais tranquilo e feliz em saber que vocês estão levando a Gestão de Crises e Desastres a sério.


Galeria de imagens

Desocupação de todos os edifícios ocorreram sem incidentes percebíveis.
Desocupação de todos os edifícios ocorreram sem incidentes percebíveis.
Pontos de Encontro da Queiroz Galvão e Edifício Linneo de Paula Machado
Pontos de Encontro da Queiroz Galvão e Edifício Linneo de Paula Machado
Treinamento de Desocupação? Mas eu já sou desocupado o dia inteiro! (calma! não é bem isso!)
Bombeiros ministrando cursos básicos de primeiros socorros: Atendimento de Queimados, Afogados e Técnicas de Ressuscitação em Crianças
Forte presença dos Bombeiros e Defesa Civíl
Forte presença dos Bombeiros e Defesa Civíl