O incêndio da Boate Kiss em Santa Maria e o preço de sermos reativos

O incêndio ocorrido no último domingo (27) na boate Kiss em Santa Maria/RS foi um desastre que chocou todo o Brasil. Naturalmente o assunto recebeu todos os holofotes da mídia focados especialmente na série de falhas que levaram a uma quantidade intolerável de fatalidades de jovens e universitários.

As estatísticas assustam ainda mais quando comparamos com outros incidentes desastrosos como no caso do naufrágio do  transatlântico Costa Concórdia em 2012 quando foram vitimados um total de 34 pessoas.

Incêndio Boate Kiss (19,67% de fatalidades) e Naufrágio Costa Concórdia (0,68% de fatalidades)
Incêndio Boate Kiss (19,67% de fatalidades) e Naufrágio Costa Concórdia (0,68% de fatalidades)

Obviamente qualquer número de fatalidades é inaceitável, mas a taxa de mortalidade é assustadoramente maior na boate Kiss: 19,67% de um total estimado em 1200 pessoas enquanto no Costa Concórdia apenas 0,68% de um total de aproximadamente 5.000 entre passageiros e tripulação.

A tragédia que tem o maior número de mortos nos últimos 50 anos no Brasil e já é considerada a terceira mais fatal em boates no mundo levou a uma série de questionamentos e enquanto alguns pontos são quase uma piada de mau gosto como recomendar aos pais inspecionar o local para onde seus filhos saem, também estamos presenciando uma série de ações em diversas cidades para evitar que outro incidente similar ocorra.

É o que está acontecendo no Rio de Janeiro onde de acordo com a reportagem veiculada hoje (01/02) no Bom dia Brasil da TV Globo,  serão fechados ‘preventivamente’ todos os espaços culturais como teatros e museus que estavam funcionando sem autorização dos bombeiros.

É interessante apontar que a maior parte dos mais de 30 estabelecimentos fechados são administrados diretamente pelo governo e prefeitura do estado e que boa parte das autorizações estão vencidas desde 2008 e 2009.

Mais incessante ainda é a declaração do Cel. Sergio Simões, comandante dos bombeiros do RJ que afirmou , mesmo sem as autorizações: “Não diria que estávamos correndo risco, por que o público que frequenta um teatro é um público diferente do que frequenta uma boate, por exemplo”. Concordo até que os frequentadores sejam diferentes, mas ausência de risco? Esta não é a realidade.

Cel. Sérgio Simões - Comandante Bombeiros RJ: "Não diria que estávamos correndo risco, por que o público que frequenta um teatro é um público diferente do que frequenta uma boate"
Cel. Sérgio Simões – Comandante Bombeiros RJ: “Não diria que estávamos correndo risco, por que o público que frequenta um teatro é um público diferente do que frequenta uma boate”

Qualquer ambiente fechado como bares, boates, teatros, cinemas, shoppings e similares sempre contará com sua cota de indivíduos com dificuldade de locomoção, crianças, idosos e – no caso de um incidente sério como incêndio e fumaça – pessoas em pânico que instintivamente adotam o comportamento de manada.

Infelizmente pagamos pelo erro de viver na cultura onde o padrão é ser reativo. Os estabelecimentos no Rio de Janeiro e em outros lugares não estão sendo fechados “preventivamente”. Se o incêndio em Santa Maria não tivesse ocorrido dificilmente qualquer ação teria sido tomada e ainda existe o grave risco de nos acomodarmos novamente assim que a mídia passar para outro assunto “mais interessante”. Nesse caso o preço foi a vida dos 236 jovens, sem contar nos mais de 70 feridos na tragédia que estão em estado crítico e correm risco de morrer. Este é o custo do comodismo e de pensar apenas de forma reativa.

Postura Proativa

A postura reativa também é a mesma em empresas privadas, diversos projetos de Segurança da Informação ou Continuidade de Negócios começam apenas após a ocorrência de um incidente maior ou mesmo desastre. Como diz William H. Webster: “Security is always seen as too much until the day it’s not enough.”

A dura lição que temos de tirar deste trágico evento é a clara necessidade de adotarmos uma postura proativa. A outra opção é apenas aguardarmos o próximo desastre e lamentarmos mais uma vez perguntando: “Será que isto não poderia ter sido evitado?”

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